quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Quando nem tudo precisa ser dito

 
você espera tanto por um sinal que venha do céu
que não observa o bote salva vidas que te oferece o mar
e você usa tudo o que te aprisiona como âncora
como se o medo bem guardado o tempo parasse
  
o vento não para, ele em tudo te ultrapassa
o balanço das águas te faz mutável, mesmo contra a vontade
um amor que escapa pelo dedos, é finito, não tem jeito
e por mais que se preserve a fotografia, ela sempre envelhece

 o tempo cura todas as feridas, por amnésia ou teimosia
e o que você pensa ser esperança, é a mais perigosa ilusão
mesmo se o vício em ser infeliz é que te faça companhia
 o fato é um verbo rasgado, um tapa na cara, aceite ou não



quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Apenas outra teria sobre tudo


Eu deveria estar trabalhando agora
mas não consigo, me abstraio de tudo
esse texto me chama e ele nem existe ainda
é um emaranhando de ventos e texturas
que me atraem, do outro mundo

e eu amo esse outro mundo, mais que tudo
sei do tempo, sei das sombras, sei das luzes
sei dessa experiência, sei das dores, das flores
das rimas, dos versos, das cicatrizes e das curas

devo estar aqui, andar pelas pedras, pisar o chão
ser matéria para lapidar a alma
ser prisioneira, para ser mais que livre
mas as estrelas, as luas, o crepúsculo...essa música
que saudades desse meu outro mundo

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Reincidente


não me compreendo
quando me reencontro no mesmo erro
sentindo o cheiro frio e úmido do limbo
gelando os meus pés e a minha fé

a pergunta que na mente ecoa
é como pude eu de novo vacilar
como num jogo de dados, cair outra vez na casa
que me regressa para bem longe da chegada

eu que prometo aos anjos e demônios
que dessa vez farei tudo certo
que a lógica terá a voz mais alta
me calo, sem que nenhuma palavra me defenda

é só o silêncio e todos os seus argumentos
o meu reflexo solitário na poça d'água
a velha e conhecida encruzilhada
que tanto faz o lado, é o fim da estrada


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Coisas imateriais


ainda me falta muito nesta vida
ainda um pouco de tudo eu diria
mais cheiro de terra molhada
mais banho de chuva gelada
mais encontros de amor na madrugada
mais fogos de artifício na enseada
mais flores fora da estação
mais primaveras invadindo o verão
 
ainda me falta tanto nesta vida
que já não uso nenhuma medida
guardei o relógio quando peguei a bússola
prefiro saber para onde vou, não quando
pois há tempos entendi que a viagem
vale muito mais que a chegada
que a estrada tem de ser apreciada
porque é nela que se escreve uma história
 
ainda me faltam coisas nessa vida
destas que não se deixam acumular
sorrisos de criança, lambidas de animais
beijos apaixonados, olhares que dizem obrigado
o prazer silencioso da meta alcançada
horizontes sob o luar, sobre a areia da praia
as mãos dadas com quem se ama
mas não a ousadia de querer sempre mais
 


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Happy birthday my friend!


 
a vida nos atravessa
numa esquina que surge do nada
e nos coloca diante de outra alma
e sem que se perceba
mesmo que cada alma siga uma via
em direções opostas na encruzilhada
carregam um ao outro por todo sempre
porque quando é amizade de alma
é perene


 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Truque

 
e essa ordem que tudo rege no planeta
os átomos, os códigos, as senhas
tudo tão rigorosamente orquestrado
eliminando da teoria o capítulo dos acasos
me enlouquecendo com tantos argumentos
como se o óbvio fosse óbvio mesmo
se tudo segue um rito, um ritmo
uma cadência perfeita de sequências
onde a lógica se intitula a regente
e afirma dura e categoricamente
que o amor é apenas bioquímica
 
por que então fico eu aqui na soleira
olhando o abismo que no horizonte se desenha
se foi você quem disse que me amava?
por que fico eu esperando que um toque
leve embora a tua ausência?
por que o ônus de me sentir amada
me faz desse sabor tão viciada?
prisioneira sem algemas, 
dolorosamente livre de corpo e alma
para não ser nem tua, nem de mais ninguém
se eu nunca disse que te amei?
 
 
 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Dona de nada

 
 
seria hoje ou nunca
ela preferia que fosse nunca
mas enquanto ela regava os vasos
ele saltava os muros
 
enquanto ela cosia botões
sonhava com os novos armários
guerreava com seu cabelo rebelde
ele simplesmente não voltava pra casa
 
e quando voltava, não era ele
o mesmo corpo, o mesmo rosto, a mesma boca
até a voz era igual, impressionante!
mas lá estava, os olhos lhe denunciavam
 
e dentro do seu coração gritava, impostor!
mas ele mansamente lhe tomava e esperançosa, ficava
até o dia em que descobriu que ele era um gato
então entendeu que ele sempre seria fiel a si mesmo



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O que vejo?



o mesmo, o efeito
o jeito, sem jeito
o compasso, sem passo
a lua, nublada
 
o visto, sem risco
o contorno, quadrado
o lado, de fora
o salto, sem alto
 
uma aposta, um tiro
uma vaia, risos
uma palavra, abrigo
 uma fita, enigma
 
o disfarce, sigilo
o amor, embutido
o sorriso, vazio
o lacre, intacto
 
o drama, vivido
os nós, apertados
a estrada, no mapa
os sonhos, dormidos
 
o medo, estorvo
os pés, ancorados
o futuro, em jaula
e a chave, guardada

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Vento

 
eu sei que você nasceu para ser vento
que o azul que sai dos teus dedos
que no papel segreda os teus erros
é o nanquim mais nobre deste mundo
 
 desejo solitário, impuro de tantos excessos
que busca sossego em meio ao caos
o teu silêncio, na rua, em horário de pico
a tua rima lá no céu, tal o sol e a lua
 
és vento que chega manso
 como são os ventos mornos
quase não notei o contorno
 o laço em volta do corpo
nem quando foi derradeiro adeus
 tão suave foi o abandono



quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Sete luas

 
 
você que só vê os meus excessos
o que transbordo só quando quero
de nada sabe sobre o meu silêncio
que nem sob a lupa se desvenda
o que eu soterrei sob sete luas
 
hoje meu oceano é feito de asfalto
e os meus sonhos medidos em palmos
e nas cicatrizes tatuo flores e vertigens
dores e amores, sinônimos ímpares
canções e versos que só eu ouço e rimo
 


terça-feira, 30 de junho de 2015

Poetar com a vida

 
 
dizem que o poeta feliz se cala
eu acho que ele vira abelha, troca rimas por saliva
versos doces por beijos verdadeiros
 
o poeta sobrevive do abstrato
das travessias que faz entre os mundos
e das sensações que traz dessas viagens
 
o bom poeta é apenas um solitário
alguém que escreve pedidos de socorro
mas não sabe a quem os destinar
 
eu já não sou poeta
o mar já não é uma vírgula, pus fim ao eufemismo
mas ainda gosto das fantasias...
 
 

terça-feira, 23 de junho de 2015

James Horner


 
ainda que as árvores se despojassem de suas folhas
que das flores não exalasse mais nenhum perfume
que toda gota d'água se evaporasse dos oceanos
que o mundo inteiro se desbotasse de suas cores
você nos faria habitar no paraíso, só com sua música
 
em cada nota minuciosamente pendurada no varal
um toque do seu gênio, outro de quem te fez
 navegador de todos os mares, timoneiro das embarcações
guardião das chaves e anfitrião dos melhores salões
o dom e a partilha, que tão cedo ao lar retorna
 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Oceana-me

 
você é um mapa sem estradas
um roteiro que não pode ser escrito
humano e divino tal o som de um piano
que faz com que me perca o tempo todo
a medida em que acho o que procuro
 

você é o contraste que me fazia falta
a luz que faz mais bela a sombra e realça o foco
 é um destino certo mesmo que em porto incerto
que me leva num barco à deriva conduzido pela lua
a mais nobre timoneira dos amantes nestes oceanos
 
 


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Porão

 
imagino quão vazios sejam os teus porões
com quanto silêncio apedrejou os teus medos
para ostentar agora essa figura tão descolada
sem necessidade nenhuma de amar e ser amado
 
imagino quantas vezes se evitou olhar ao espelho
fez a barba de qualquer jeito
 penteou com os dedos o cabelo
guardou na garganta todos os amargos
 
e deu bom dia a ela forçando um sorriso
observando a casa que ela esqueceu, desabotoada
enquanto se recordava da noite em que ela
escorreu da sua cama para o quarto ao lado
 
e ela seguiu todas as manhãs lendo os noticiários
para ofuscar o desconforto de um diálogo
e você aprendeu a escrever poemas
que joga pela janela, feito iscas no anzol
 
e o que deveria te salvar, te escraviza ainda mais
põe nesses poemas tudo o que tem a lhe dizer
e covardemente dedica às tuas vítimas inocentes
despertando novos amores...em vão
 
não vai além, nem sai de onde está, de fato não quer
escreve teus gritos em versos, algema-os no papel
ela sabe que tudo o escreve é dela, mas te espera
quer ser eleita a única da tua vida, quando já é
 
tenho pena do silêncio
do perdão que não chega
das palavras que não se fazem chaves
dos pensamentos que não se expelem
das bocas que não se amam
dos corpos que não se entregam
das chamas que não se apagam
mas que se deixam soterrar pelo cotidiano...
 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Até quando fênix?

 
você diz um querer
mas tropeça nas tuas vontades
à luz deixa aquecer os teus olhos
mas nas sombras oculta vícios teus
 
na ponta da língua nascem muitos versos
nos atos, simplesmente o inverso
sopra o vento do norte, anuncia o céu
sopra o vento do sul, o inferno que vem
 
e eu ando com o meu coração
de um lado a outro, procurando repouso
vivendo um dia de cada vez
morrendo e renascendo quantas vezes puder
 
 

terça-feira, 10 de março de 2015

Sobre os amores que não são


É chuva de verão
que inunda o mundo num repente
alterando o cenário emoldurado pela janela
que faz reviver todas as células
sedentas desta água benta

quisera chover eternamente
encher lagoas e construir oásis
mas é chuva tão passageira
mal chega a refrescar a pele
antes a deixa mais com sede

e nos tempos de seca, que saudade
imaginar as gotas dedilhando a carne
magistralmente como Ludovico Einaudi
não sei como pode ficar assim na memória
o que para alguém nem sequer teve nome

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Ritos


beija-me antes que seja hora de partir
antes que desapareça o brilho das estrelas
antes que eu recupere a minha prudência
e comece a ponderar os prós e os contras

tem coisas que a matemática não alcança
tem forças que confundem as respostas
e subtraem das perguntas qualquer lógica
tem horas que o silêncio traduz tantos gritos

beija-me antes que viremos amigos
antes que você perceba que eu rio à toa
de todas as tuas piadas, até mesmo quando se cala
antes que o óbvio venha à tona

não finja que não deseja o mesmo que eu
você não estaria comigo, numa noite de sábado
me ouvindo falar do meu tolo cotidiano
que eu tento florear mais que os vasos da varanda

então, beija-me
pare de falar, pare de evitar
esse beijo que já aconteceu no nosso desejo
desde o momento em que eu te abri a porta




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Arbítrio

 
e se tudo foi um engano
se fomos vítimas de um encanto de sereia
ou da miopia de um velho cupido
 
e se estamos ainda entramados
por não saber como nos livrar desses versos
que nos receita o amor como remédio
 
e se eu deveria te deixar ir
e tapar os meus olhos para o teu destino
e apagar atrás de mim, o meu rasto
 
mas se você quiser ficar, que fique direito
você será sempre livre, para me amar
como também é livre para não ser meu
 
o arbítrio é o que pende o fio do equilíbrio
é o que move agulha da bússola e aponta os rumos
é o sol que dissipa as brumas das incertezas
 
 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Replay

 
 
às vezes eu só preciso que você acredite em mim
 como um último fio que não se desfaz
quando a corda no penhasco parece se romper
como uma vírgula que confunde os pontos finais
unindo argumentos, sem terminar as frases
como um risco que reinicia a melodia do vinil
quando a agulha desliza sobre as derradeiras linhas
eu te peço, olhe para mim, em mim
não temos outro lugar comum que em 'nós'
singular composto de nós, cegos laços
acredite em mim, replay baby
vezes e vezes, sem fim
 
 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Birra

 
 
o relógio quebrado me desliga do óbvio
o fluxo interrompido das horas jorra o silêncio
lá fora tudo não passa de vento e intervalo
mais do mesmo que resulta num punhado de nadas
postes seguram lamparinas, mesmo quando estão frias
o amor que ora dilacera o peito, outrora remenda feridas
 
o faz de conta é um artifício paliativo, passatempo
retém os medos por trás dos frouxos sorrisos
tão falsos quanto os diamantes de acrílico
lentamente escorrego pelo dia, esvaindo em sonhos
pedidos de socorros inaudíveis, porém nunca ditos
teimosamente enterrados, sob sete palmos de argumentos
  


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O silêncio e a vírgula


está tudo à mão
tão perto quanto o calor
do teu hálito
tão fácil de ser tragado
num suspiro frágil
do teu amor tão refém
do meu amor
muito mais além

por que é o impossível
que tanto atrai?
é só um ímã de contradições
se o ser feliz
é o encontro do silêncio e da vírgula
do abrigo com a chuva
o resto é desengano
palpitações que na janela ficam

sorte de quem vê o perto
de longe
de quem tem a sabedoria
de olhar sem passar pelos olhos
de deixar falar
o que em palavras não se diz
o que de dentro parece vir
mas que de fato atravessou os mundos


domingo, 23 de novembro de 2014

Trilhas


doces e sutis são os artifícios do destino
silenciosos como a gaivota sobre o oceano
coreografando ventos e riscos imaginários
passo a passo, costurando enredos distintos

agora, vendo tudo desenhado, parece tão lógico
como não seria, se era receita da mais irresistível
seu sorriso, sua voz, sua boca, sua língua
conjugando o impossível e o sonho, na mesma rima

como não amar todas as vírgulas, todos os ângulos
todas as esquinas do dia-a-dia, todos os desvios
todos os caminhos que trilhei sem saber que você existia
se na encruzilhada eu encontrei a direção do norte, nos teus olhos 


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Desafinado

 
são os meus sonhos que escorregam das tuas mãos
são meus lábios sedentos dos teus beijos
que as tuas rudes palavras ressecam
 
são os frágeis botões de um belo jardim
que num dia secreto você plantou em mim
que agora, sem nenhum cuidado passa o rastelo
 
é o meu nome que enrola na tua língua, eu sinto
quando sabe que tem mais de mim no teu travesseiro
do que em qualquer outro canto desse universo
 
 


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O caso do acaso

 
foi numa curva feita às pressas
foi ali, que me vi em teus olhos refletida
 entretons castanhos, soube-me perdida
 
e pecar em ti foi um ato quase inocente
quando errar parece ser simplesmente o mais certo
e salivei, ainda desconhecendo teu o gosto

e antecipei no pensamento milhares de versos
rascunhos secretos dos meus desejos latentes
a espera que a gaveta certa fosse fatalmente aberta

e foi...
 
 
 


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sofreguidão

 
passou por mim como se fosse somente um acaso, talvez fosse
mas procurou pela minha boca como quem precisa de um último gole
mesmo que dela não tivesse provado nada além do que alguns sorrisos
 
 
 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

É teu

  
corro o mesmo risco ao colocar
meu coração em tuas mãos
como quando fecho os meus olhos
para provar algo, talvez um doce
ou quando aceito entrar num comboio
sem bagagem e sem saber para onde
 
mas estou inconsciente dos riscos
meu desejo sobrepõe qualquer raciocínio
você me tirou muito mais que o fôlego
vai muito além do que alcança a retórica
é coisa do espírito, mais que metafísico
e de tão rebuscado, absurdamente puro
 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Cegueira

 
 
ela entregou-lhe os doces
que tinha acabado de confeitar
foram dias maturando as frutas
colhendo anis, raspando baunilha
e ela caprichava na desenvoltura
que ele, por vezes, se enternecia
outras porém, simplesmente nada via
absorto em sua própria contagem do tempo
em seu estranho método de priorizar a vida
e ela buscava constantemente os seus olhos
não era somente a melhor confeiteira da vila
tinha um beleza que rareava qualquer simetria
 
mas ele não parecia notar a singularidade de nada
nem do seu belo rosto, nem dos teus doces finos
comeu tudo, sem nenhum cuidado com as fitas
os enfeites, o embrulho cuidadosamente conseguido
migalhas caíram ao chão, misturando-se à poeira
a moça observava em silêncio, incrédula 
tamanha pressa em desfazer o que era teu
e nem um mísero doce lhe ofereceu
nem sequer se apercebeu que ela também tinha fome
que enquanto ligava os ingredientes no tacho
imaginava-os a dissolver, colorindo os seus beijos
que no meio daquele melaço, haviam tantos versos

e ela pôs-se a mirá-lo da janela, sua imagem definhar no horizonte
uma avalanche de palavras se amontoavam no peito
mas os lábios da jovem não se desgrudaram
não lhes desejaram boa viagem, nada foi dito
guardaram luto pelo amor interrompido
morte estúpida, que morre mesmo antes de ter nascido
lamenta ter-se demorado tanto a admirar aqueles olhos castanhos
a desejar limpar as suas velhas botas, a aparar a sua barba
a cuidar daquele pobre homem errante, como se fosse um príncipe
e ele caminha ainda sob o efeito de tão doces mimos
quase convencido de que fez o melhor para a moça, partir o quanto antes
fingindo não ver o que aquele par de olhos verdes lhe dizia
 


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Calmaria

 
lindo é o gesto de carinho secreto
partilhado num dia comum de setembro
sem festa, sem saltos altos e o cabelo revolto
 
lindo é o beijo dado na palma da mão
como um mimo que pudesse ser guardado
para ser gasto quando a ausência pesar no coração
 
lindo é a paz no amor sem interrupção
mesmo quando as declarações mais poéticas
surjam diante do abismo da separação
 
é lindo o mar se enrolando em ondas
quebrando em gotas prateadas sobre as pedras
mas é na calmaria das águas que o céu se espelha
 
 


domingo, 24 de agosto de 2014

Sentidos


será que lá no fim vamos entender o desperdício 
tantos desvarios, tantas distrações infinitas e vazias
são tantas as janelas que ficarão entreabertas
muitas músicas entoadas na imaginação do poeta
 bocas intocadas, valsas ensaiadas nos pés, sob a mesa
romances abotoados pelas mãos do receio, desejos em vão
ilusão de que tudo caminha na certa direção, mesmo sem vento
será que um dia, enfim, nos daremos conta 
de que sairemos todos pela mesma porta de entrada
que essa nossa estada, é somente uma visita
uma curta temporada, no palco da vida
que a nossa maior busca é a interna
que o cenário só nos complementa
que o amor não pode ser esquecido, adiado
é tão urgente, quanto breve é estar vivo

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ar


eu ando em círculos ao teu redor
ao sabor do vento das tuas vontades
eu penso que subo alguns degraus
mas nunca saio do mesmo patamar

eu vejo você ao alcance das mãos
e num ímpeto me lanço em teu destino
ciente do iminente perigo, lucidez em vão
e não resisto, como a traça que não evita a chama

você me queima, eu te queimo
não somos vítimas, tão pouco predadores
somos uma espécie de vício, algo bom
que só na overdose encontra o equilíbrio

não sei mais estar sem você, meu ar



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

1:1000


carrega-me de forma sutil, quase não me vejo
estou nas sombras de todos os teus pensamentos
no momento do riso, inconsciente procura o meu
só para que a insensatez de amar faça algum sentido

leva-me contigo, sobretudo na minha ausência
vê-me, sem explicação plausível, no reflexo do espelho
sentindo a saudade entrar em ti como faz o vento
impetuosamente, derrubando portas e paredes

quando amamos nunca mais somos só, nunca mais somos silêncio
dentro de nós, dois corações cirandam e latejam
mesmo que a distância insista em ditar o mapa,
o afeto redesenha, abusando da sua própria escala



quarta-feira, 30 de julho de 2014

Aversão aos fatos

 

De todas as coisas que dizem sem palavras
Os atos são os que menos falam
Já os olhos são verdadeiros poços líricos
 
Sou completamente avessa aos fatos
São como cimento sobre a poesia
Sepulcros de ardores e regozijos
 
Não há ditado que me convença
Mais do que mil palavras encerradas num ato, impossível
Se é por covardia que silencia no peito todos os gritos

 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Entre a lua e as esquinas

 
e mesmo que você não perceba
mesmo que me cubra de poeira
e me feche num quarto escuro
emperre as janelas com a força do martelo
eu sinto teu suor escorrer pelo punho
 
talvez você já não me compreenda
 e não encontre respostas no meu silêncio
mas foi você quem me trouxe aqui
para ver desaparecer as tuas pegadas na areia
vê-lo impedir o vento de pronunciar o meu nome
 
eu me perdi nas últimas linhas
não percebi quando os poemas morreram
 os que eram para mim, de repente no pretérito
e eu fiquei com uma mão cheia de rabiscos 
quando você apagou até o que nunca foi escrito 
 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Dois pássaros num voo pleno

 
ouço-te a falar das tuas antigas amantes
sentindo minha alma ciumenta
singrar em oceanos de perigo eminente
o equilíbrio pendendo para o desfiladeiro
a boca que seca e o peito que ofega
vetando o cérebro de todo oxigênio
 
o medo e a curiosidade travam um duelo
como se quisesse provar veneno
quase morrer para se tornar imune
em pequenas doses, em fatos narrados
descrevendo sua pele rasgada de tanto desejo
inunda todos os porões do meu pensamento
 
e afoga-me num passado que não é meu
e eu percebo que prefiro a inocência do desconhecimento
que te quero descobrir pelas minhas lentes
nos escrever, sem usar os rascunhos de ninguém
 


terça-feira, 1 de julho de 2014

Você

 
você me tomou de assalto
habitou todos os meus cômodos
decidiu que minhas palavras
agora são suas, todas elas
mudou o meu ritmo, minha poesia
concretizando os meus versos
você está em tudo o que escrevo
nos recantos das entrelinhas
na cola que une as sílabas
e até mesmo nas vírgulas
quando recupero o fôlego
e novamente te inspiro
 
 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Garimpeiros

 

entre milhares de rostos
sorrisos sinceros e falsos
diamantes e plásticos
à mercê dos acasos
garimpamos, buscamos
contos com finais felizes
pontes sobre os oceanos
elementos que se ligam
entre tantos humanos
a faísca que nos acende
e nos torna de repente
essenciais, um ao outro
 


terça-feira, 10 de junho de 2014

Gospel

 
 
por cada sombra minha que ilumina
por cada crença que em mim esfarela
por cada janela que em minh'alma escancara
por cada semente de dúvida no âmago plantada
por cada incógnita que me responde sem palavras
 
por cada gota do oceano
por cada átomo do ar que respiro
por cada sismo que me abala
por cada falha que me perdoa
por toda paciência que me espera
 
por todo sorriso que me dedica
por teu amor infinito
amo-te
 


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Em águas turvas

 
não pode o pincel sair ileso
de um desenho, na tela que ao fim chegou
sem ter as cerdas gastas, impregnadas de cores
e de memórias dos movimentos por onde se arrastou
 
não pode uma criança experimentar um doce
sem se lambuzar pelo tato até ao palato alcançar
sem provar todos os seus verdadeiros sabores
misturando-se à textura, cheiros e sensações
 
não pode um jogador disputar uma grande partida
sem macular as suas vestes com o suor do teu corpo
sem desalinhar cada um dos fios do teu cabelo
sem se entregar a cada lance, como se fosse o último
 
por que queres tu sair incólume ao amor?
sem sequelas de memórias, sem os efeitos colaterais do tempo
sem a saudade que faz os risos ecoarem de repente
sem o ódio que te enche de rancor e te cega...
 
 
 


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Maria vai com as outras



  da janela observo um cotidiano em trânsito
passos apressados em todas as direções
um vai e vem urbano, quase mecânico
uma sinfonia, sem melodia e sem regente

vejo corações e almas, não vejo gente
nas gavetas, em casa, os sonhos intactos
esperam pacientes, um dia quem sabe
se quebrem as correntes e se alforriem

aí, talvez, não exista mais capitalismo
nem socialismo, nem anarquismo
só um bando de gente feliz
a viver do jeito que sempre quis

que o mal do século é ver o mundo usando filtros
e se deixar moldar em série, em cópias toscas do original
se angustiar pelos sonhos que não lhes pertencem
que lavam suas mentes em outdoors

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Lendas?

 
às vezes, as palavras se tornam abismos
em outras, surgem como balões de oxigênio
amar é um ato literal, verbo ao pé da letra
 
rendida a alma, em cárcere privado
naquele instante, sempre tua, nunca minha
e o corpo não desobedece, segue à risca
 o tom exato de cada nota, em cada linha

plainando quando lhe é permitido voar, serenamente
despenhando quando o vento cessa de repente
que me soprem, sempre, as palavras mais bonitas
que sejam ágeis e ariscas ao passar
quando as janelas estiverem entreabertas
 
que nunca me falte o ar que de você respiro
que não amar eternamente é que é utopia
e se entregar sem arreio, é só um pequeno exagero
que perpetua o melhor dos sentimentos
vinícius tem uma boa teoria, mas imagina o que diriam
tristão e isolda sobre o que é infinito!


sexta-feira, 16 de maio de 2014

12 por 8

 
ela quase se esconde atrás dos livros
preenchendo vazios com sonhos alheios
emaranhando memórias e fantasias
perdendo a verdade de vista
que se esbate feito um barco que veleja
 
e um dia, quando se lembra de levantar os olhos
procura com pressa um espelho almejando
encontrar o mesmo esquecimento
do tempo que não passa nos livros
o mesmo frescor que faz da bela, sempre donzela
 
talvez o fosse, intemporal, como os poemas
se das tuas veias jorrasse o nanquim, quando te magoas
 e perfume dos teus olhos, quando te emocionas
em grande ilusão nos vendam as palavras
se notar, ser imortal, é nunca viver


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Tramas

 
não queria voltar no tempo
nem revisitar os mais suaves momentos
queria somente ser ainda menina
para que me pudesse descobrir fêmea
tirar de mim todas as folhas
revelar minhas cores verdadeiras
tato e palato sobre a mesa
 
queria me encontrar nos teus olhos
quando fita o nada com deleite
pautar tua história com romance
entre o prefácio e o desfecho
ser a tua linha do horizonte
nem o antes, nem o depois
ser tua leitura mais demorada, o meio
 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Alba

 
 
é um lago onde gosto de me banhar
um leito quente e macio onde me deito
é uma lua no céu em noites limpas
um caldo quente nas noites frias
uma agenda inocente cheia de poesia
você é uma fantasia encarnada
um sonho que eu vivo acordada
você é uma mistura de luzes
alvoradas e poentes
sabores, aromas e quereres
 
 


terça-feira, 15 de abril de 2014

Uma poetiza feliz

 
se por tua causa eu parar de escrever
se nunca mais me abrigar da chuva
se permitir que a ventura assuma o leme
e os teus sinônimos me releem
 
o acaso será o meu caminho
a sorte minha estrela-guia
a felicidade, um certo destino
e você minha única poesia
 
 


Instrumental II

 
eu não sei mais o que fazer com as palavras
elas não mais me elucidam, antes me desorientam
confunde-me na essência, na falta de sentido
no caos em que cirandam, tropeçando em semânticas
 
não porque elas perderam o sentido
sou eu que não me reconheço mais nelas
são elas que não mais me cercam
nem rótulos, nem epígrafes e os tais finais felizes
 
não sei o que fazer sem as palavras
 meu canal entre o mundo e o espírito
o silêncio que trancafia os meus versos
num pedaço de papel que teima em ficar em branco

e se antes eu me sentia protagonista
agora sinto que aguardo na coxia
esperando o solo que me intervala
até que a fala se desabroche em novas rimas
 
 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Habitat

 
ser mais que tua
mais que a palavra pertença
consegue descrever
mais do que poderia
estar escrito num papel
mais do que alguma vez
fui de outro alguém
ser tão tua
e até mesmo
quando você não quer
 
o amor tem desses absurdos
 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Libélula

 
era uma vez alguém que sonhava
enquanto os pés na areia marcava
mas o rastro não se desenhava numa linha reta
eram, obviamente, as pegadas de uma menina
 
e ela dançava
 
tão óbvio como as estrelas são femininas
a lua, a chuva, a ventania
tudo que soa a fantasia
tudo que desalinha o céu, os mares
e o coração dos homens
 
quando ama então, muito mais!
 
 

terça-feira, 25 de março de 2014

Algodão doce

 
de volta aos papéis e aos lápis
e aos sonhos desamassados
que se libertam dos rascunhos
no fundo da gaveta guardados
 
de novo os pés me desobedecem
mal tocam o chão, de salto em salto
caminham por nuvens lilases
como se fossem camas de algodão

castelos de açúcar são tão reais
os de barro é que não existem mais