segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O silêncio e a vírgula


está tudo à mão
tão perto quanto o calor
do teu hálito
tão fácil de ser tragado
num suspiro frágil
do teu amor tão refém
do meu amor
muito mais além

por que é o impossível
que tanto atrai?
é só um ímã de contradições
se o ser feliz
é o encontro do silêncio e da vírgula
do abrigo com a chuva
o resto é desengano
palpitações que na janela ficam

sorte de quem vê o perto
de longe
de quem tem a sabedoria
de olhar sem passar pelos olhos
de deixar falar
o que em palavras não se diz
o que de dentro parece vir
mas que de fato atravessou os mundos


domingo, 23 de novembro de 2014

Trilhas


doces e sutis são os artifícios do destino
silenciosos como a gaivota sobre o oceano
coreografando ventos e riscos imaginários
passo a passo, costurando enredos distintos

agora, vendo tudo desenhado, parece tão lógico
como não seria, se era receita da mais irresistível
seu sorriso, sua voz, sua boca, sua língua
conjugando o impossível e o sonho, na mesma rima

como não amar todas as vírgulas, todos os ângulos
todas as esquinas do dia-a-dia, todos os desvios
todos os caminhos que trilhei sem saber que você existia
se na encruzilhada eu encontrei a direção do norte, nos teus olhos 


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Desafinado

 
são os meus sonhos que escorregam das tuas mãos
são meus lábios sedentos dos teus beijos
que as tuas rudes palavras ressecam
 
são os frágeis botões de um belo jardim
que num dia secreto você plantou em mim
que agora, sem nenhum cuidado passa o rastelo
 
é o meu nome que enrola na tua língua, eu sinto
quando sabe que tem mais de mim no teu travesseiro
do que em qualquer outro canto desse universo
 
 


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O caso do acaso

 
foi numa curva feita às pressas
foi ali, que me vi em teus olhos refletida
 entretons castanhos, soube-me perdida
 
e pecar em ti foi um ato quase inocente
quando errar parece ser simplesmente o mais certo
e salivei, ainda desconhecendo teu o gosto

e antecipei no pensamento milhares de versos
rascunhos secretos dos meus desejos latentes
a espera que a gaveta certa fosse fatalmente aberta

e foi...
 
 
 


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sofreguidão

 
passou por mim como se fosse somente um acaso, talvez fosse
mas procurou pela minha boca como quem precisa de um último gole
mesmo que dela não tivesse provado nada além do que alguns sorrisos
 
 
 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

É teu

  
corro o mesmo risco ao colocar
meu coração em tuas mãos
como quando fecho os meus olhos
para provar algo, talvez um doce
ou quando aceito entrar num comboio
sem bagagem e sem saber para onde
 
mas estou inconsciente dos riscos
meu desejo sobrepõe qualquer raciocínio
você me tirou muito mais que o fôlego
vai muito além do que alcança a retórica
é coisa do espírito, mais que metafísico
e de tão rebuscado, absurdamente puro
 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Cegueira

 
 
ela entregou-lhe os doces
que tinha acabado de confeitar
foram dias maturando as frutas
colhendo anis, raspando baunilha
e ela caprichava na desenvoltura
que ele, por vezes, se enternecia
outras porém, simplesmente nada via
absorto em sua própria contagem do tempo
em seu estranho método de priorizar a vida
e ela buscava constantemente os seus olhos
não era somente a melhor confeiteira da vila
tinha um beleza que rareava qualquer simetria
 
mas ele não parecia notar a singularidade de nada
nem do seu belo rosto, nem dos teus doces finos
comeu tudo, sem nenhum cuidado com as fitas
os enfeites, o embrulho cuidadosamente conseguido
migalhas caíram ao chão, misturando-se à poeira
a moça observava em silêncio, incrédula 
tamanha pressa em desfazer o que era teu
e nem um mísero doce lhe ofereceu
nem sequer se apercebeu que ela também tinha fome
que enquanto ligava os ingredientes no tacho
imaginava-os a dissolver, colorindo os seus beijos
que no meio daquele melaço, haviam tantos versos

e ela pôs-se a mirá-lo da janela, sua imagem definhar no horizonte
uma avalanche de palavras se amontoavam no peito
mas os lábios da jovem não se desgrudaram
não lhes desejaram boa viagem, nada foi dito
guardaram luto pelo amor interrompido
morte estúpida, que morre mesmo antes de ter nascido
lamenta ter-se demorado tanto a admirar aqueles olhos castanhos
a desejar limpar as suas velhas botas, a aparar a sua barba
a cuidar daquele pobre homem errante, como se fosse um príncipe
e ele caminha ainda sob o efeito de tão doces mimos
quase convencido de que fez o melhor para a moça, partir o quanto antes
fingindo não ver o que aquele par de olhos verdes lhe dizia
 


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Calmaria

 
lindo é o gesto de carinho secreto
partilhado num dia comum de setembro
sem festa, sem saltos altos e o cabelo revolto
 
lindo é o beijo dado na palma da mão
como um mimo que pudesse ser guardado
para ser gasto quando a ausência pesar no coração
 
lindo é a paz no amor sem interrupção
mesmo quando as declarações mais poéticas
surjam diante do abismo da separação
 
é lindo o mar se enrolando em ondas
quebrando em gotas prateadas sobre as pedras
mas é na calmaria das águas que o céu se espelha
 
 


domingo, 24 de agosto de 2014

Sentidos


será que lá no fim vamos entender o desperdício 
tantos desvarios, tantas distrações infinitas e vazias
são tantas as janelas que ficarão entreabertas
muitas músicas entoadas na imaginação do poeta
 bocas intocadas, valsas ensaiadas nos pés, sob a mesa
romances abotoados pelas mãos do receio, desejos em vão
ilusão de que tudo caminha na certa direção, mesmo sem vento
será que um dia, enfim, nos daremos conta 
de que sairemos todos pela mesma porta de entrada
que essa nossa estada, é somente uma visita
uma curta temporada, no palco da vida
que a nossa maior busca é a interna
que o cenário só nos complementa
que o amor não pode ser esquecido, adiado
é tão urgente, quanto breve é estar vivo

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ar


eu ando em círculos ao teu redor
ao sabor do vento das tuas vontades
eu penso que subo alguns degraus
mas nunca saio do mesmo patamar

eu vejo você ao alcance das mãos
e num ímpeto me lanço em teu destino
ciente do iminente perigo, lucidez em vão
e não resisto, como a traça que não evita a chama

você me queima, eu te queimo
não somos vítimas, tão pouco predadores
somos uma espécie de vício, algo bom
que só na overdose encontra o equilíbrio

não sei mais estar sem você, meu ar



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

1:1000


carrega-me de forma sutil, quase não me vejo
estou nas sombras de todos os teus pensamentos
no momento do riso, inconsciente procura o meu
só para que a insensatez de amar faça algum sentido

leva-me contigo, sobretudo na minha ausência
vê-me, sem explicação plausível, no reflexo do espelho
sentindo a saudade entrar em ti como faz o vento
impetuosamente, derrubando portas e paredes

quando amamos nunca mais somos só, nunca mais somos silêncio
dentro de nós, dois corações cirandam e latejam
mesmo que a distância insista em ditar o mapa,
o afeto redesenha, abusando da sua própria escala



quarta-feira, 30 de julho de 2014

Aversão aos fatos

 

De todas as coisas que dizem sem palavras
Os atos são os que menos falam
Já os olhos são verdadeiros poços líricos
 
Sou completamente avessa aos fatos
São como cimento sobre a poesia
Sepulcros de ardores e regozijos
 
Não há ditado que me convença
Mais do que mil palavras encerradas num ato, impossível
Se é por covardia que silencia no peito todos os gritos

 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Entre a lua e as esquinas

 
e mesmo que você não perceba
mesmo que me cubra de poeira
e me feche num quarto escuro
emperre as janelas com a força do martelo
eu sinto teu suor escorrer pelo punho
 
talvez você já não me compreenda
 e não encontre respostas no meu silêncio
mas foi você quem me trouxe aqui
para ver desaparecer as tuas pegadas na areia
vê-lo impedir o vento de pronunciar o meu nome
 
eu me perdi nas últimas linhas
não percebi quando os poemas morreram
 os que eram para mim, de repente no pretérito
e eu fiquei com uma mão cheia de rabiscos 
quando você apagou até o que nunca foi escrito 
 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Dois pássaros num voo pleno

 
ouço-te a falar das tuas antigas amantes
sentindo minha alma ciumenta
singrar em oceanos de perigo eminente
o equilíbrio pendendo para o desfiladeiro
a boca que seca e o peito que ofega
vetando o cérebro de todo oxigênio
 
o medo e a curiosidade travam um duelo
como se quisesse provar veneno
quase morrer para se tornar imune
em pequenas doses, em fatos narrados
descrevendo sua pele rasgada de tanto desejo
inunda todos os porões do meu pensamento
 
e afoga-me num passado que não é meu
e eu percebo que prefiro a inocência do desconhecimento
que te quero descobrir pelas minhas lentes
nos escrever, sem usar os rascunhos de ninguém
 


terça-feira, 1 de julho de 2014

Você

 
você me tomou de assalto
habitou todos os meus cômodos
decidiu que minhas palavras
agora são suas, todas elas
mudou o meu ritmo, minha poesia
concretizando os meus versos
você está em tudo o que escrevo
nos recantos das entrelinhas
na cola que une as sílabas
e até mesmo nas vírgulas
quando recupero o fôlego
e novamente te inspiro
 
 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Garimpeiros

 

entre milhares de rostos
sorrisos sinceros e falsos
diamantes e plásticos
à mercê dos acasos
garimpamos, buscamos
contos com finais felizes
pontes sobre os oceanos
elementos que se ligam
entre tantos humanos
a faísca que nos acende
e nos torna de repente
essenciais, um ao outro
 


terça-feira, 10 de junho de 2014

Gospel

 
 
por cada sombra minha que ilumina
por cada crença que em mim esfarela
por cada janela que em minh'alma escancara
por cada semente de dúvida no âmago plantada
por cada incógnita que me responde sem palavras
 
por cada gota do oceano
por cada átomo do ar que respiro
por cada sismo que me abala
por cada falha que me perdoa
por toda paciência que me espera
 
por todo sorriso que me dedica
por teu amor infinito
amo-te
 


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Em águas turvas

 
não pode o pincel sair ileso
de um desenho, na tela que ao fim chegou
sem ter as cerdas gastas, impregnadas de cores
e de memórias dos movimentos por onde se arrastou
 
não pode uma criança experimentar um doce
sem se lambuzar pelo tato até ao palato alcançar
sem provar todos os seus verdadeiros sabores
misturando-se à textura, cheiros e sensações
 
não pode um jogador disputar uma grande partida
sem macular as suas vestes com o suor do teu corpo
sem desalinhar cada um dos fios do teu cabelo
sem se entregar a cada lance, como se fosse o último
 
por que queres tu sair incólume ao amor?
sem sequelas de memórias, sem os efeitos colaterais do tempo
sem a saudade que faz os risos ecoarem de repente
sem o ódio que te enche de rancor e te cega...
 
 
 


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Maria vai com as outras



  da janela observo um cotidiano em trânsito
passos apressados em todas as direções
um vai e vem urbano, quase mecânico
uma sinfonia, sem melodia e sem regente

vejo corações e almas, não vejo gente
nas gavetas, em casa, os sonhos intactos
esperam pacientes, um dia quem sabe
se quebrem as correntes e se alforriem

aí, talvez, não exista mais capitalismo
nem socialismo, nem anarquismo
só um bando de gente feliz
a viver do jeito que sempre quis

que o mal do século é ver o mundo usando filtros
e se deixar moldar em série, em cópias toscas do original
se angustiar pelos sonhos que não lhes pertencem
que lavam suas mentes em outdoors

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Lendas?

 
às vezes, as palavras se tornam abismos
em outras, surgem como balões de oxigênio
amar é um ato literal, verbo ao pé da letra
 
rendida a alma, em cárcere privado
naquele instante, sempre tua, nunca minha
e o corpo não desobedece, segue à risca
 o tom exato de cada nota, em cada linha

plainando quando lhe é permitido voar, serenamente
despenhando quando o vento cessa de repente
que me soprem, sempre, as palavras mais bonitas
que sejam ágeis e ariscas ao passar
quando as janelas estiverem entreabertas
 
que nunca me falte o ar que de você respiro
que não amar eternamente é que é utopia
e se entregar sem arreio, é só um pequeno exagero
que perpetua o melhor dos sentimentos
vinícius tem uma boa teoria, mas imagina o que diriam
tristão e isolda sobre o que é infinito!


sexta-feira, 16 de maio de 2014

12 por 8

 
ela quase se esconde atrás dos livros
preenchendo vazios com sonhos alheios
emaranhando memórias e fantasias
perdendo a verdade de vista
que se esbate feito um barco que veleja
 
e um dia, quando se lembra de levantar os olhos
procura com pressa um espelho almejando
encontrar o mesmo esquecimento
do tempo que não passa nos livros
o mesmo frescor que faz da bela, sempre donzela
 
talvez o fosse, intemporal, como os poemas
se das tuas veias jorrasse o nanquim, quando te magoas
 e perfume dos teus olhos, quando te emocionas
em grande ilusão nos vendam as palavras
se notar, ser imortal, é nunca viver


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Tramas

 
não queria voltar no tempo
nem revisitar os mais suaves momentos
queria somente ser ainda menina
para que me pudesse descobrir fêmea
tirar de mim todas as folhas
revelar minhas cores verdadeiras
tato e palato sobre a mesa
 
queria me encontrar nos teus olhos
quando fita o nada com deleite
pautar tua história com romance
entre o prefácio e o desfecho
ser a tua linha do horizonte
nem o antes, nem o depois
ser tua leitura mais demorada, o meio
 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Alba

 
 
é um lago onde gosto de me banhar
um leito quente e macio onde me deito
é uma lua no céu em noites limpas
um caldo quente nas noites frias
uma agenda inocente cheia de poesia
você é uma fantasia encarnada
um sonho que eu vivo acordada
você é uma mistura de luzes
alvoradas e poentes
sabores, aromas e quereres
 
 


terça-feira, 15 de abril de 2014

Uma poetiza feliz

 
se por tua causa eu parar de escrever
se nunca mais me abrigar da chuva
se permitir que a ventura assuma o leme
e os teus sinônimos me releem
 
o acaso será o meu caminho
a sorte minha estrela-guia
a felicidade, um certo destino
e você minha única poesia
 
 


Instrumental II

 
eu não sei mais o que fazer com as palavras
elas não mais me elucidam, antes me desorientam
confunde-me na essência, na falta de sentido
no caos em que cirandam, tropeçando em semânticas
 
não porque elas perderam o sentido
sou eu que não me reconheço mais nelas
são elas que não mais me cercam
nem rótulos, nem epígrafes e os tais finais felizes
 
não sei o que fazer sem as palavras
 meu canal entre o mundo e o espírito
o silêncio que trancafia os meus versos
num pedaço de papel que teima em ficar em branco

e se antes eu me sentia protagonista
agora sinto que aguardo na coxia
esperando o solo que me intervala
até que a fala se desabroche em novas rimas
 
 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Habitat

 
ser mais que tua
mais que a palavra pertença
consegue descrever
mais do que poderia
estar escrito num papel
mais do que alguma vez
fui de outro alguém
ser tão tua
e até mesmo
quando você não quer
 
o amor tem desses absurdos
 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Libélula

 
era uma vez alguém que sonhava
enquanto os pés na areia marcava
mas o rastro não se desenhava numa linha reta
eram, obviamente, as pegadas de uma menina
 
e ela dançava
 
tão óbvio como as estrelas são femininas
a lua, a chuva, a ventania
tudo que soa a fantasia
tudo que desalinha o céu, os mares
e o coração dos homens
 
quando ama então, muito mais!
 
 

terça-feira, 25 de março de 2014

Algodão doce

 
de volta aos papéis e aos lápis
e aos sonhos desamassados
que se libertam dos rascunhos
no fundo da gaveta guardados
 
de novo os pés me desobedecem
mal tocam o chão, de salto em salto
caminham por nuvens lilases
como se fossem camas de algodão

castelos de açúcar são tão reais
os de barro é que não existem mais
 


Coautores

 
apenas te espero
como quem espera uma carta de amor
através das janelas, para além da chuva
que atrasa o passo do mensageiro
e segura os ponteiros do relógio
 
com a ânsia de uma criança
que já virou moça-mulher
e deseja ser intimamente tocada
com palavras, das doces às ácidas
 
e então assim, pela carta
pertencer primeiro ao enredo do autor
que ao toque real das tuas mãos
 


quinta-feira, 13 de março de 2014

Ensaios

 
é tão bom quando você se entrega
 faz-me sorrir mais por dentro
do que revelam os meus lábios
faz brilhar mais o meu espírito
do que seriam capazes os meus olhos
faz meu coração ferver
mais do que suportaria o corpo
 
o que você provoca em mim
quando se entrega
talvez não seja visto
mas toque a minha pele
para você ver...
 
eu te mostro
 


domingo, 9 de março de 2014

sexta-feira, 7 de março de 2014

Tempo & Espaço

 
você procura seu próprio caminho
sua voz, sua paz
eu acho lindo essa busca
que vasculha os cômodos
do teu espírito, do teu ser
mas, amor, não busque os porquês
amar é mesmo um ato desmedido
puramente sem sentido
a razão não lhe faz par
não há como ser exato
num terreno tão abstrato
a única coisa que para mim
faz sentido
é sentir o que sinto
e oferece-lo a você
porque o violão mudo
é só uma peça de madeira e aço
o perfume no frasco
é uma fórmula aromática
de essências em átomos
é um pote de ouro
não encontrado
é um sorriso guardado
se o que me resta é
te fazer poesia
então eu faço
até que a tinta acabe
até que a rima se cale
até que o ponto final
faça sentido na frase
ou até que a vírgula
venha me socorrer
e eu possa continuar
a ser a tua poeta


terça-feira, 4 de março de 2014

Momentos

 
 

não há noites, não há dias
nem sombras, nem feixes de luzes
nem silêncio, nem música
 
não há sonhos, nem pesadelos
só a espera, o chá que esfria
 e a penumbra no fim da rua
 

Tática

 
esquece o que marca o passo
 o tempo
o  intervalo
o meio
 
é sutil
encontrar o ritmo
dos desejos
e alinhar os astros
no mesmo compasso
 
saber quando avançar
sem entrar nas casas erradas
nas emboscadas
 
é quase como um jogo
que não se joga
e estrategicamente
se vence
 sem ninguém perder em nada
 


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Estátua viva

acho que veio junto
com as outras peças
que eu puxei do armário
veio no meio de outros sentimentos
que eu pensei estarem bem guardados
 
e quando caiu sobre meu colo
fiquei olhando, admirada
ainda sonho? - perguntei ao espelho
ele disse: sim!
o tempo não passa entre nós, é só o vento
que desalinha fios e linhas
do teu cabelo, da tua face 
 
pois quando você me olha
não sou eu quem a vejo
é você mesma, sua alma
que efeito tem nela o tempo?
 
sim, você sonha
e ama feito a mesma menina
que sempre foi, sempre será
esquece o vento, deixe-o ventar
 
é da natureza dele te bagunçar
te fazer virar, rodopiar
soprar as folhas do caminho
assim como é da tua dançar
 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Por que parou de chover?


 não foi você quem disse
que me ensinaria a ser amada
que não haveria outro
que me amaria como você?
 
então, vai ficar aí parado?
ou vai me puxar para a sua vida
usar as palavras para dizer o que sente
porque eu não leio mentes
 
o silêncio é uma borracha
que vai apagando os poemas
pelo menos aqueles que tenho
escritos dentro do peito
 
é assim que me ensinas a te amar?
tapando meus olhos com vendas
trocando verdades por mentiras
como se fosse um vício
 
não vê que assim vou ter medo
de me confiar novamente a ti
se me levas a caminhar entre pedras
ora lisas, ora pontiagudas
 


Vago


por que eu me sinto tão segura
quando você está por perto?
eu poderia ali ficar para sempre
mas não sei se também te machuco
quanto você a mim, constantemente
 
não me lembro qual poeta disse
que amar é morar em alguém
eu não estou em mim neste momento
estou em você, morando no teu peito
infelizmente, parece que você também
 
no meu não mora ninguém
você me desabitou de repente
desligou o telefone no meio da minha fala
calou minha voz, parou o meu sangue
apagou as luzes e levou as minhas chaves



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Rasto

Feeling Empty Tumblr
 
ali
ao redor de ti
eu evaporo
o desejo de te tocar
de esquecer
que foi você
quem me esqueceu
primeiro
me faz chorar
sem lágrimas
porque nada
em mim
está úmido esta noite
eu queimo
de despeito
mas vejo
que não tem outro jeito
de me fazer notar
senão desaparecendo


 
partiu os sonhos em mil pedaços
e sem saber o que fazer com os cacos
livrou-se deles ali mesmo, no asfalto
camuflando o que era belo com poeira
 
e eu o observo da minha janela
incrédula com a sua falta de cuidado
com o que também era meu
 


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Nostalgia

  

sentiu que precisava de ar
correu até lá fora
onde o mar lhe soprava sal
mareando os lábios e o olhar

se esforçando para ver o horizonte
viu a noite
e só

e ainda que ardam os seus recantos
da lembrança de suas andanças
pelas suas partes, pelo seu corpo
falta aquela que em tudo faz arte
 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Luz que ofusca

 
          Como haveria de transformar mais um dia banal, num dia interessante, logo numa segunda-feira?...Foi indagando sobre o tema que ela atravessou a rua, em piloto automático, cumprimentou o senhor da banca de jornal, sem levantar os olhos, sequer confirmou se ele de fato lá estava, não estava.
          Olhando para a time line do facebook, rolando a página compulsivamente para baixo, a procura do interruptor que lhe ligasse. Não, nada de novidade! - diz em voz alta. Pelo menos o ex-marido não postou mais fotos com a atual namorada - como se eu me importasse com os seus romances, tenho mais o que fazer! - conclui, com ar de deboche.
          Caminhava, lendo, comendo, bebendo, pensando. Ah, como pensava! E de tanto que pensava, não pensava, presa às palavras da tua cabeça, às cobranças, carreira, salário, compromissos, desde à manicure ao relatório financeiro mensal para o CEO da empresa onde trabalhava. Um agenda interminável, atropelada, lhe esperava, impiedosa, às 8 da manhã.
          Ausente de si mesma, poderia facilmente ser substituída por um robô - ninguém daria pela troca! - pensa angustiada, num rasgo de lucidez, num rasgo de presença. Mas o vício do cotidiano lhe prende novamente em sua teia. Nas próximas horas ela vai esquecer que existe, por pensar que existe assim,  definida em palavras bonitas que vão todas parar no currículo, nenhuma nas poesias.
         
          Sara, a secretária, aproveita todas as folgas do dia para escrever poesia - coitada! - condena ela,  assinando os papéis que a moça de unhas vermelhas lhe entrega. Pensa que eu não sei que você faz as unhas aqui, no escritório? - indaga em pensamento, entregando os papéis. Pensa que não percebo quando liga para o namorado, suas risadinhas, seus arquejos? Pensa que não noto no teu pescoço as marcas de uma noite acalorada ? - amontoam-se as perguntas acusatórias em sua cabeça.
          Quando Sara bate a porta atrás de si, ela está rubra de despeito, praticamente aliviada pela partida da secretária. Gira na cadeira e olha para fora do prédio, através da enorme janela, quase do tamanho da parede.
          O mundo lá fora parece um formigueiro, um desfile de carros, táxis, caminhões, pessoas, guardas de trânsito, crianças...enquanto se perde em divagações, nota que a banca de jornal não está no seu lugar. Confusa e intrigada pergunta à Sara:
          _ Sara, para onde foi a banca do seu Bento, aquela ali da esquina?
          Sara faz silêncio por alguns segundos, até que por fim responde:
          _ Senhora, há cerca de 6 meses eu coloquei um envelope na sua mesa, disse-me que o leria quando tivesse tempo. Depois, como vi que não o abriu, guardei-o na sua pasta de 'correspondência por ler'.
 
          Desliga o telefone e dirige-se para o arquivo, retira a pasta e encontra um envelope amarelo com a inscrição 'Para a bela do edifício Bianco'.
          Sorri - só pode ser este - conclui ao lembrar que Bento assim lhe tratava, sempre que parava para comprar revistas.
          Abre o envelope, puxa a carta deixando cair junto um botão de rosa seco e desbotado.
 
'Minha bela,
Estou de partida, mas antes queria lhe dizer algumas palavras, que por excesso de cuidado, nunca disse. Em primeiro lugar, meu nome não é Bento (rs!) e sim, isso eu tentei lhe dizer diversas vezes, mas você assim insistia em me chamar. Meu nome é Jorge.
Um dia fui como você, com pressa de viver, com ânsia de subir as escadas, acumular moedas e títulos, propriedades, viagens, cartões de visitas....
Um dia porém, meu coração disse-me basta e parou de trabalhar compulsoriamente. Sem me pedir autorização, sem aviso prévio ou um simples post it. E eu fui obrigado a fazer algo que não fazia há 20 anos, parei.
E com muita tristeza vi que tinha construído um império, mas meus filhos não me amavam e minha mulher tolerava minha presença, estragada pelo meu mau hábito de compensar minha ausência com pertences. Eu tinha tudo e não tinha nada. E quando eu decidi não ter nada e ter tudo, ela tomou coragem e se separou de mim.
Mais uma vez eu agradeci o infortúnio, depois de sobreviver ao ataque cardíaco, aprendi a melhorar meu ângulo de visão sobre os acontecimentos. Primeiro, aprendi que não os controlo. Depois, aprendi que é uma perda de tempo tentar controlá-los. A criatividade divina é terrivelmente melhor que a nossa, deixe a vida te mostrar os caminhos por onde pode andar, vai-te surpreender minha querida.
Espero que minha carta não esteja te aborrecendo, que tenha lido até o final, que tenha perdido seu tempo comigo, pelo menos uma vez.
Então saberá, Fernanda Costa e Silva, que sei o teu nome, que nunca fui o dono da banca de jornal, que todos os dias eu simplesmente parava lá e te esperava. Que te ver passar, mesmo que apressada eram os minutos mais belos do dia. Que me inspirou a pintar muitas telas, sim, virei pintor ou na verdade sempre fui. Mas adormeci esta paixão para corresponder às expectativas da família. Que você, minha querida, foi muito amada, sonhada, poetizada. E que na única vez em que você me olhou nos olhos foi suficiente, me apaixonei, no mesmo instante.
Torço, de coração, para que não demore a perceber que eu comprei a banca, só para mudá-la de lugar, na esperança que fora do alcance dos raios solares que nela batia de manhã, você possa, sem se ofuscar, me olhar de novo nos olhos. Que sabor tão doce!
Te espero, nem que seja para um café. Sara tem o novo endereço da banca.
 
Não se permita secar, perder as tuas cores e o teu perfume, sem nunca ser tocada por um beija-flor.
Jorge Santarosa
 
           Ela dobrou a carta, calmamente. Ficou em silêncio, pela primeira vez, sem pensamentos. Depois de pegar o endereço de Jorge com a Sara, saiu da sala. Ao pé da escada ouviu seu chefe perguntar em voz alta:
          _Nanda, você terminou o relatório?
          Ela não respondeu, começou a descer as escadas.
          Ele, já aflito, pergunta novamente:
          _ Onde você pensa que vai?!
 
          Ela parou, olhou para trás, direto nos seus olhos, notou que eles eram mais bonitos do que se lembrava. Sorriu ternamente e disse em voz tranquila:
          _ Não penso e é por isso que vou.
 


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Magneto

 
porque você e eu
não somos iguais
aos outros casais
que fomos antes
com outros pares
 
porque você e eu
somos uma nova aquarela
um novo dicionário
uma nova receita
um novo lugar
 
porque você e eu
não temos nada
que nos prenda
mas é tamanha tesla
que parecemos ferro e ímã
 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Percepções

enamorados | Tumblr
 
te quero tão fisicamente quanto for possível
já que de certa forma você nunca vai embora mesmo
então fique, em corpo presente, materializando meus quereres
 
me emociono cada vez que minhas mãos te alcançam
de tão mágico, num momento de puro surrealismo
quando o sonho sai do plano invisível e se torna real
 
a felicidade me deixa num que de insanidade
sem mudar as horas do relógio, sem mexer nas estrelas
sem tirar nada do lugar, mudando por inteiro o meu mundo, meu íntimo

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Invisível

 
hoje não quero pensar em nada
em como vai ficar o meu cabelo
no que vestir ou se combina com os brincos
hoje não vou pensar em existir
quero antes me guardar numa caixa
hermeticamente fechada
sem oxigênio
sem luz
sem pulso
sem barulho
sem amor, sem dor
sem pensamento
e enquanto não expirar a minha validade
enquanto eu resistir aos efeitos do tempo
morrer em silêncio, enquanto sobrevivo
enquanto finjo que vivo
até que a realidade me jogue na cara
todas as suas verdades
e eu de tão morta, já nem ligo
 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Inquilinos da Lua

 
sou literal
sou letra
sou senha
sou poeta
incógnita
rima e verso
rimas inversas
rimas que versam
os versos ao contrário
do fim pro começo
da boca pra dentro
alimento que não se come
e que sustenta a alma
alimento que vira semente
que brota no peito
que exala, sem cheiro
perfumando palavras
em versos, inversos
que une os versos
em universos
criando mundos
onde habitam os poetas
que pagam aluguel à Lua
ao pé da letra
em dia
à noite
a toda hora...